Mentir e ser mentido


Dia 1º de abril, conhecido mundialmente como o Dia da Mentira, me fez pensar no que mantém esta data até hoje reconhecida e a faz mobilizar brincadeiras e pegadinhas aqui e acolá.





De certo, entre tantas datas comemorativas "de brincadeira" que são esquecidas, a mentira deve ter certa importância para nós a ponto de ser lembrada todo primeiro de abril. Buscando saber mais sobre a data, descobri que desde o início do século XVI até o ano de 1564, o Ano Novo tinha suas comemorações finalizadas em 1º de Abril, quando era iniciado um novo ano. Com a adoção do calendário gregoriano, a data passou a ser celebrada em 1º de janeiro. Mas foi naquele momento que começaram as pegadinhas e brincadeiras que sucederiam até os dias de hoje, pregando peças naqueles que ainda consideravam a "virada" no dia 1º de abril.





(De certo modo, ainda que desconhecendo esta informação até a data de hoje, é curioso retomar a escrita dos textos neste espaço justamente na data do "verdadeiro" Ano Novo.)





Mas indo além da história da data, comecei a questionar-me quanto à importância dada à mentira nos dias de hoje (já que temos inclusive uma data para ela). Cheguei a uma tímida hipótese: somos ensinados a mentir e a sociedade mente (para nós) e espera que mintamos (para ela), ou seja, tornamo-nos mentirosos compulsivos.





Retomando o desenvolvimento da personalidade para Jung, de modo breve, este ocorre em dois momentos distintos, ambos adaptativos, sendo o primeiro adaptativo da consciência, das relações interpessoais, pela extroversão. É nesse momento que, desde muito cedo, nos relacionamos com as nossas figuras paternas, família, escola, primeiro trabalho, amigos e amores.





Aí ocorre a formação das idealizações a nosso respeito, as expectativas sobre quem somos e quem seremos. Trocando em miúdos, aprendemos como devemos ser e agir no mundo, deixando para trás tudo o que não se encaixa nesses padrões e normas.





O segundo momento refere-se a um retorno a si-mesmo, aos seus desejos, ao que foi deixado para trás, ao que não pôde ter espaço nos momentos em que era necessária a nossa adaptação ao mundo. É hora de se adaptar, novamente, mas agora a nós mesmos, a nossos mundos internos.





Quando eu digo que nos tornamos mentirosos compulsivos, fundamento minha percepção justamente na "virada" destes dois momentos. Ainda que toda a nossa energia psíquica nos coloque frente-a-frente com nossos verdadeiros "Eu"s, seguimos acreditando e propagando nossa permanência e correspondência aos padrões e normas que precisamos para nos adaptar ao mundo em que vivemos. Isto se manifesta em diversas situações, a exemplo: encontramos um conhecido no caminho do trabalho, ele nos pergunta se estamos bem e, quando não respondemos que estamos bem, automaticamente, devolvemos-lhe a pergunta; no corpo que queremos ter, mas que não nos incomoda até que nos deparemos com a necessidade de aprovação (ou desejo) do outro; na orientação sexual que precisamos mostrar para nossas esposas, mas que não é a mesma das nossas buscas em sites (virtuais ou não) adultos.





Parece-me que a mentira vem como uma grande aliada na conquista dos espaços de amor, carinho, respeito e de cuidado pelo outro. Dizer a verdade, em muitas situações, descortina nossas vulnerabilidades e nossas imperfeições. Dizer a verdade pode ser duro, cortante e nos coloca frente ao inesperado.





Será que não é hora de também nos voltarmos nós mesmos e às nossas verdades? Descobrirmos o que nos agrada e nos desagrada, e com isso as delícias de poder dizer sobre si e não sobre as expectativas e idealizações dos outros?





Fica o convite. Feliz Ano Novo!


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