Um divã para Panaceia

 

Já há algum tempo, venho refletindo sobre o modo como alguns questionamentos têm aparecido, não apenas na escuta clínica, mas também nas conversas aqui e acolá (e por que não, na escuta das fofocas de desconhecides no transporte público... quem nunca?!). Parece que, a cada dia que passa, busca-se mais e mais erradicar erros, sofrimentos, dificuldades, falhas, "defeitos".

Em especial na área da saúde, fortemente influenciada pela medicina (mas principalmente por UMA medicina), temos o constante pensamento de que é função do profissional dessa área salvar, cuidar, curar, vencer a guerra contra a doença, o sofrimento e, em última instância, a morte. Também há um direcionamento desenfreado para a "felicidade", a "evolução", e tudo isso em abundância e "prá ontem". 

Tudo isso para dizer que venho dialogando, ouvindo e acolhendo Panaceia recentemente. E me parece que se fosse uma pessoa de carne e osso, como nós, Panaceia estaria sofrendo de burnout. Panaceia é uma das filhas de Asclépio, deus da Medicina no panteão grego, e teria sido ensinada sobre a arte da cura por seu pai, junto de sua irmã Higeia (a deusa da higiene, da prevenção das doenças e manutenção da boa saúde), sendo a deusa da cura para todas as doenças. Tanto que panaceia é também como nos referimos a um remédio ou uma prática que pudesse ser a cura de todos os males (o que sabemos, não existe).


Ao dizer que tenho escutado e acolhido Panaceia, refiro-me ao que muitos dos que me procuram demandam de um atendimento psicologico. Mais recentemente venho desenvolvendo um trabalho na área social e nesse campo ela tambem se presentifica, com demandas irreais, inalcançáveis e que não respeitam os próprios processos de cada pessoa. 

A gente precisa saber que não daremos conta de tudo, sempre, afinal nem Sisifo escapou da morte para sempre. Mas também, enquanto terapeutas, nos cuidarmos para não ceder aos encantos de tentar oferecer essa Panaceia. 

Comentários

Postagens mais visitadas