Psicoterapia, para quem?


"Todo mundo deveria fazer terapia." Quem nunca ouviu esta frase?





Quando digo que sou psicoterapeuta, muita gente comenta que já fez terapia, ou que é muito importante que as pessoas busquem estes atendimentos. Para alguns, parece até que é uma forma de ter assunto ou status: "Ah, mas eu falo tanto desse assunto na minha análise...", "O meu analista isso ou aquilo", "Minha psicóloga me disse para..."





Mas se tem algo que me incomoda é pensar sobre essa norma de que "todo mundo deve" passar por uma análise. De fato, seria bem interessante, se as pessoas se dispusessem a entrar em contato com suas angústias, sentimentos, sombras. Só que daí a considerar que a psicoterapia ou a análise seria mandatória, ou recomendada sem maiores especificações, penso que podemos banalizar este fazer de almas, que é a psicoterapia. O confronto com nossas sombras vai acontecer, invariavelmente, a psique já faz isso sozinha e, caso não haja nenhuma dificuldade nesse percurso, a psicoterapia, ao meu ver, é totalmente dispensável.





Lembro-me de uma discussão de um caso atendido em equipe multidisciplinar que nos perguntávamos sobre o que poderíamos fazer a respeito do atendimento psicológico deste sujeito, e uma médica questionou "mas ele tem, de fato, demanda para psicoterapia?" Silêncio.





Esquecemos que para se fazer terapia, análise, é necessária uma demanda. É necessário que o sujeito sinta-se incomodado e queira pensar sobre como lidar com ou sustentar sua angústia. Como se "ir ao analista" fosse mais um dos muitos check-lists que temos de preencher para sermos pessoas melhores, plenas, evoluídas (inclusive, se é esta sua ideia de "resultados" de uma terapia, senta aqui, vamos conversar...).





Vejo também entre colegas esta ansiedade em "prospectar novos clientes", pontuando os benefícios de uma psicoterapia, criando conteúdos relacionados a como é importante e necessário se mobilizar em relação aos nossos desconfortos e fazer mudanças, que demandam esforço, investimento, coragem. Para mim, algo extremamente perigoso, se considerar que algo tão individual quanto saúde mental pode ser concebido tão generalizado.





Ao analista não cabe o papel de ajustar o sujeito à "normose", mas sim criar meios de que o sujeito se reconheça em suas sombras, sua angústia, em si-mesmo e consiga sustentar-se enquanto indivíduo.


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